A História do Tecnobrega

principe negro

Embora ainda majoritariamente desconhecidos pela grande mídia em 1970, os cantores da música brega começaram a se apresentar por vários estados do Brasil. Em Belém, o movimento se fortaleceu com o aparecimento de novos talentos na cena local. Entre as gravadoras que protagonizaram a produção musical na década de 1980, no Pará, estão a Studio M Produções e Studio Digitape.

Paralelo ao investimento das gravadoras locais na música brega, iniciou-se um movimento por parte de alguns atores locais, liderado em grande parte pela advogada Silvinha Silva, de instituição da prática de registro das músicas em editoras e de cobrança e pagamento dos direitos autorais – iniciativa até então praticamente inexistente nessa cena musical. Silvinha Silva abriu a editora AR Music e foi a responsável por boa parte dos registros de composições locais.

A partir daí, o negócio da música brega e ritmos dela derivados cresceu em ritmo acelerado. Investiu-se na abertura de novas casas de show, estúdios, editoras e gravadoras. “(…) Cantores renomados do cenário nacional passaram a selecionar e gravar músicas de compositores paraenses. A prova do sucesso do ritmo paraense são as casas noturnas – como A Pororoca, atualmente a principal e de maior estrutura, a extinta Xodó, onde o movimento recomeçou nos anos 90, Mauru’s, Kuarup, entre outras – específicas para o gênero, superlotadas, apenas com atrações locais e a audiência maciça dos programas de rádio AM e FM e de TV dedicados somente ao gênero. (…) Tudo isso provando a paixão do povo paraense por esse ritmo”, exaltou Junior Neves em entrevista à Alessandra Tosta, antropóloga que realizou uma pesquisa qualitativa sobre o gênero em Belém.

Na década de 1980, alguns cantores passaram a ter expressão nacional e contratos com gravadoras de renome, levando o brega, de Belém para todo o Brasil. Mas, no final dessa década, o mercado assistiu a uma significativa redução na venda de discos e poucos cantores permaneceram no movimento musical, o que fez o brega perder espaço para outros estilos musicais na mídia. O axé ganhou expressão nacional e chegou ao Pará, ocupando o cenário antes protagonizado pelo brega e afastando o estilo local da cena musical paraense por um longo período.

Foi na segunda metade dos anos 1990 que Belém viu o estilo renascer. Só que, dessa vez, de cara nova. Com influência do ritmo caribenho, aceleração das batidas e a introdução de guitarras, surge o bregacalypso, na voz não apenas de cantores antigos, mas também de novos artistas, atraindo um público mais amplo e diferente. O estilo propagou-se pelas regiões Norte e Nordeste do Brasil e chegou até mesmo a Caiena, capital da vizinha Guiana Francesa. Mais do que a consolidação de um novo gênero musical popular do Pará, o ressurgimento do brega representou a emergência de uma nova indústria cultural local.

A partir dos anos 1990, uma série de reformulações no estilo brega gerou novos gêneros musicais, como o bregacalypso, tecnobrega, cybertecnobrega e bregamelody. Produtos de diferentes inovações musicais, cada uma dessas derivações caracterizou uma época e nasceu da mistura de diversos estilos com o brega tradicional. O bregacalypso surgiu na década de 1990, o tecnobrega entre os anos 2001 e 2003 e, de lá pra cá, vieram os estilos cybertecno e o melody.

Sendo assim, o tecnobrega nasceu da fusão da música eletrônica com o brega tradicional. Esse novo estilo musical foi criado longe das gravadoras – nacionais e locais, grandes ou pequenas – e dos meios de comunicação de massa – em especial, rádio e televisão. O tecnobrega se expandiu, de maneira independente, da periferia para toda a região metropolitana de Belém, da cidade para o estado do Pará, do estado para o Brasil. Hoje em dia, o estilo já é conhecido internacionalmente: rendeu reportagem no The New York Times e menção no documentário “Good Copy Bad Copy”, de Andreas Johnsen, Ralf Christensen e Henrik Moltke. O tecnobrega também vem atravessando uma outra barreira: a social. O estilo continua tendo apelo popular, mas cada vez mais está presente em círculos de clubes sofisticados do circuito bregueiro e até mesmo da música eletrônica.

São vários os fatores que levaram o tecnobrega a conquistar novos espaços e públicos. Dentre eles, podemos citar a melhoria na produção dos CDs e DVDs, a realização de shows em feriados importantes no interior do estado, a criação de programas de rádio feitos por artistas do circuito e a exposição nas mídias eletrônicas.

Ao contrário do que se pode pensar, a entrada nos meios de comunicação de massa não foi o que possibilitou o sucesso do circuito tecnobrega. Foi a conquista de um público massivo que fez com que o novo estilo entrasse na pauta destes meios, por televisão, de que não poderiam mais ignorar o fenômeno. A tecnologia foi central na criação do tecnobrega. O estilo surgiu da fusão da música eletrônica com o brega tradicional, acelerando e dando uma roupagem contemporânea ao ritmo paraense. Típica do chamado mundo globalizado, a mistura de características globais com as locais em uma obra artística protagoniza a cena cultural da cidade de Belém hoje. A definição de quem foi o criador do estilo é controversa. Em um cenário onde os artistas sofrem influência das mesmas referências, é bastante possível que os resultados dessas interferências sejam cruzados, semelhantes e influenciados entre si. Assim foi com a bossa nova, o jazz, o rock, o tropicalismo e o samba.

* Fonte: “Tecnobrega: O Pará reinventando o negócio da música” de Ronaldo Lemos e Oona Castro.

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